Colonos de Petrópolis
Henrique Arthur de Souza
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Transcrevo, a seguir, em aditamento ao que anteriormente já expus,
texto integral de onde extraí as informações divulgadas.
Esclareço que minha intenção foi tão somente, fornecer as informações de que disponho sobre Felipe Dietz, na tentativa de oferece-las, com despretensão e gentileza, sem avocar para minha pessoa, a qualificação - eminentemente técnica - de pesquisador, mas, apenas, na condição de um leitor que, não obstante, já tem "horas de vôo" suficientes para ter consciência de que, como afirmou Sócrates à Pitonisa de Delphos: "quanto mais sei, mais sei que nada sei...". As informações que disponibilizei, norteado pela simples intenção de colaborar com o grupo que, com honra e dignidade, faço parte, foi, reitero, atender à solicitação de uma companheira, divulgando-as de forma simples e concisa, como requer o veículo de que nos utilizamos. Apenas diante da necessidade de esclarecer as divergências de informações por você suscitadas permito-me usar de maior espaço e tempo, pelo que me escuso diante de todos. Capitulo 01 Entretanto, diga-se de
passagem, foram essas informações publicadas na Revista Genealógica
Latina, Ano de 1952, órgão de divulgação da
Federação dos Institutos Genealógicos Latinos,
distribuída, dentre outros, nos seguintes países: ARGENTINA,
CHILE, COSTA RICA, CUBA, EQUADOR, ESTADOS UNIDOS, MÉXICO, PERU,
ALEMANHA, ÁUSTRIA, ESPANHA, INGLATERRA, ITÁLIA, PORTUGAL,
RÚSSIA, SUÉCIA, SUÍÇA, ETC...
http://www.artedata.com/crml/crml0006.htm Registro de Entrada de Estrangeiros no Porto do Rio de Janeiro. O Arquivo Nacional conserva os registros da movimentação de estrangeiros, nas capitanias (1777-1819) e no porto do Rio de Janeiro (1831-1845). Esta base de dados tem como origem o magnífico trabalho de Guilherme Auler, que teve a iniciativa de publicar resumo dos registros disponíveis, no início da década de 1960. Início: 1994. Registros: 7.116." http://www.geocities.com/Eureka/7968/petro/index.htm "A exploração
de uma casa de jogos gerou veementes protestos na Câmara Municipal
e levou à revogação do contrato em 1892. No final
da década de 60, após pedidos do cidadão Guilherme
Auler junto ao então Serviço do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional - Sphan, o Palácio de Cristal foi tombado.
Passou a importante monumento e um dos mais conhecidos cartões postais
de Petrópolis."
Capitulo 02
A Fazenda do Córrego
Seco, nucleo inicial da futura Petrópolis, foi comprada pelo Imperador
Dom Pedro I ao seu então proprietário o sargento-mor José
Vieira Afonso, com escritura lavrada em 6 de fevereiro de 1830, no cartório
de Manuel Marques Perdigão.
O elemento germânico de Petrópolis está dividido em dois grupos: Nos que vieram em 1837, pelo navio "Justine" em número de 235, e os que chegaram no ano de 1845,pôr 13 navios, num total de 2.111 pessoas. Os primeiros viajavam do HAVRE para a Austrália, quando o comandante do "Justine" resolveu fazer escala no Rio de Janeiro, devido a um motim dos passageiros, revoltados com os maus tratos e privações. O engenheiro Júlio Frederico Koeler, então, incumbido da construção da estrada do Itamarati, logo providenciou a vinda desses elementos, a fim de aproveitá-los nas obras que realizava, demostrando praticamente a superioridade do trabalho livre e a necessidade imperiosa de colonos para a Província do Rio de Janeiro. Os bons resultados obtidos com os 235, acidentalmente vindos para os núcleos de povoação, que mais tarde dariam origem a Petrópolis, entusiasmaram os governantes da Província, que celebraram um contrato para a vinda de colonos com a casa de Dunquerque, Charles Delrue & Cia.
É Henri Raffard quem, no seu primoroso trabalho "Jubileu de Petrópolis" ("Revista do Instituto Histórico Brasileiro", tomo 58,1896, pg. 5 a 213), informa a ida de 106 colonos para o Rio Grande do Sul, em vez de subirem a serra de Petrópolis. Hoje,podemos documentar
a afirmativa de Henri Raffard com o manuscrito existente no Arquivo da
Casa Imperial (maço 108 - documento 5.302. Museu Imperial
Petrópolis), que abaixo divulgamos:
Capitulo 03 "Senhor!
"Eles os ditos Colonos são obrigados à Província, pôr este ato de benignidade e amarrados a ela com suas qualidades. Porém os suplicantes são gente bem destra na cultura do arroz e em nenhum ramo da indústria eles podem ficar tão útil neste Império e explicar seus sentimentos de agradecimentos, como naquele. Por conseqüência disto, eles dirigem-se humildemente para a clemência de Vossa Majestade Imperial rogando que lhes queira conceder aos suplicantes ir para a Província do Rio Grande de São Pedro do Sul, aonde a Agricultura está na maior flor e aonde eles já tem seus parentes e conhecidos, dos quais eles receberão assistência para o seu estabelecimento econômico. "Os suplicantes confessam com muita vontade, como eles ante a evidência disto, tem de restituir ao Govêrno da Província do Rio de Janeiro, as despesas de viagem da Alemanha para o Rio de Janeiro; e com muita vontade eles declaram-se prontos a prestar a sua obrigação; porém uma parte deles está inteiramente tão pobre, que não tem nada; uma outra parte tem só pouco, assim que para os tais é impossível; desta razão êles rogam a Vossa Majestade Imperial que lhes queira terminar a restituição das despesas por sua viagem da Alemanha para lá, que foi a Província do Rio de Janeiro; e êles declararam-se prontos assinar um documento por cuja virtude êles serão obrigados a pagar as suas dívidas na Tesouraria do Império em tempo de três anos, e por certeza do Governo, eles prestarão fiança com todos os seus bens, especialmente com o terreno que eles esperam da benignidade de Vossa Majestade Imperial, com todas as suas benfeitorias; sobre isto prestarão todos juntos fiança por cada um em espécie, assim se um escapar os outros todos pagarão pôr ele ao Governo a sua dívida, a respeito das despesas de viagem. "Finalmente os Suplicantes dirigem ainda mais esta petição para clemência de Sua Majestade Imperial de conceder-lhes o benefício, mandá-los para o Rio Grande de São Pedro do Sul com uma Nau do Império e livre das despesas de viagem. Nunca eles acabarão de oferecer os sacrifícios de seus agradecimentos pela sua diligência e fidelidade na sua esfera da atividade e veneração com que serão de Vossa Majestade Imperial submissos vassalos. Por isto. Rio de Janeiro, 13 de agosto de 1845. 1- Nicolau Schuck com 1 mulher e 8 filhos
Afirma Raffard que o número dos que desistiram
de fixar-se em Petrópolis e seguiram para o Rio Grande do Sul, é
de 106. Vemos entretanto que o documento acima transcrito aumenta
o total para 133. É possível que alguns tenham na última
hora, resolvido mesmo subir a serra...
Capitulo 04 A primeira leva dos colonos chegou a Petrópolis, em 29 de junho de 1845, dia de São Pedro - o Apóstolo. No precioso livro até hoje inédito, de assentamentos dos ofícios da Superintendência da Imperial Fazenda para a Mordomia da Casa Imperial, colhemos valiosas informações a respeito da chegada dos colonos. Em 1º de Agosto de 1845, em ofício no.6, o Superintendente Júlio Frederico Koeler escrevia ao Mordomo Paulo Barbosa da Silva que, no mes de julho, subiram para Petrópolis mais 193 colonos, aos quais por ordem de Dom Pedro II se distribuirá a gratificação de 5$000 por pessoa, perfazendo o total de 965$000. No mês seguinte Koeller informa a chegada de mais 552 colonos durante o mes de agosto, tendo sido entregue aos mesmos, também a gratificação de 5$000 por cabeça. Noutro copiador de correspondência do Superintendente da Imperial Fazenda, livro até hoje também inédito, achamos um documentário excepcional. Em 23 de julho de 1845, o Superintendente Koeler comunicava ao Presidente da Província do Rio de Janeiro, Conselheiro Cândido Batista de Oliveira, que em Petrópolis e Quitandinha, poderia alojar cerca de 1500 famílias e fazia a seguinte sugestão: "... peço a V. Excia. que ordene que o embarque dos colonos em Niterói se faça de madrugada ou a meia noite, para que possam chegar cedo ao Porto da Estrela e irem neste mesmo dia para a Fábrica, aonde encomendarei de antemão a comida deles." No dia seguinte, Koeler informava que até essa data já tinham chegado 394 colonos e que no dia 27 poderia expedir mais 169. Quanto aos 225 recém-vindos (certamente pelo navio "Leopold", arribado ao Rio de Janeiro no dia 21 de julho), metade conviria vir no dia 1º de agosto e a outra metade no dia 5. Em 20 de agosto, o Superintendente dá uma notícia alvissareira: mais de 40 famílias já entraram na posse de suas terras (os denominados "prazos") e segundo as próprias palavras de Koeler, "apesar das demoras e fadigas que sofreram no Porto e na Fábrica, assevero a V. Excia. que os colonos todos, sem exceção, estão satisfeitos com sua sorte." Em ofício de 1º de setembro, lemos a informação que em Petrópolis achavam-se 900 colonos, não havendo no momento alojamento para outros. Sugere então, que para os que se encontram em Niterói, Porto da Estrêla e Fábrica de Pólvora à espera de destino, provisóriamente consiga-se uma ocupação. Pela escritura de arrendamento da Fazenda Córrego Seco, no seu artigo 10, Júlio Frederico Koeler se obrigava "a levantar a planta da futura Petrópolis, e do Palácio e suas dependências, gratuitamente, e a remetê-las ao Mordomo o mais breve que lhe for possível, e a demarcar em prazos de cinco braças todo o terreno que borda a estrada de um e outro lado, e a numerá-los". Com efeito, a primeira planta de Petrópolis é da autoria de Koeler, que a datou de 1846. A cidade é dividida em 12 quarteirões, além da Vila Imperial: Siméria, Renânia Central, Renânia Inferior, Castelânea, Vila Tereza, Palatinato Superior, Palatinato Inferior, Nassau, Westfália, Ingelheim e Bingen. Anos após, o número dos quarteirões foi ampliado para mais dez, pela planta de Oto Reimarus de 1854, temos mais os seguintes: Renânia Superior, Worms, Inglês, Suíço, Francês, Brasileiro, Woerstadt, Darmstadt, Presidência e Princesa Imperial. (*) Qual o motivo para essa denominação germânica, o batismo dos quarteirões? A explicação achamos num ofício de Koeler para o Presidente da Província, em 7 de agosto de 1845: "Desejando eu poder colocar os colonos alemães em grupos, pelas diversas localidades de Petrópolis conforme sua nacionalidade, o que eles aliás me requereram, rogo a V. Excia. se digne remeter com a possível brevidade relação circunstanciada dos colonos que estão aqui, na Fábrica na Estrêla ou no depósito, para que à vista das declarações eu possa efetuar meu intento." Os colonos foram agrupados, segundo a origem nos diversos quarteirões, que por sua vez, receberam o batismo da nacionalidade de quem os habitava. Em 20 de março de 1847, a Mordomia da Casa Imperial divulgou uma Portaria, aprovando as Instruções (39 artigos) para a execução do decreto de 16 de março de 1843. Os quarteirões foram subdivididos em prazos e estes classificados em 4 classes. Os de 1ª classe constituíam os terrenos destinados à povoação, próximos ao Palácio Imperial, com testada de 5 a 10 braças e 70 de fundo. Pagavam a jóia de 20$000 e o foro anual de 10 a 30 reis por braça. Os prazos de 2ª classe são terrenos próximos à povoação e colaterais à estrada geral, com testada de 15 braças e 100 de fundo. Jóia de 20$000 e foro anual de 5 a 10 réis por braça. (*) Nota da redação: A quantidade de colonos, em cada quarteirão foi a seguinte: Bingen, 28; Brasileiro, 2; Castelânea, 40; Darmstadt, 22; Dona Leopoldina, 1; Francês, 13; Ingelheim, 35; Mosela, 47; Nassau, 40; Palatinato Inferior, 13; Palatinato Superior, 22; Presidência, 16; Princesa Imperial, 1; Renânia Central, 22; Renânia Inferior, 16; Renânia Superior, 7; Siméria, 18; Suíço, 9; Vila Imperial, 38; Vila Teresa, 11; Westfália, 20; e Woerstadt, 24. Os de 3ª classe englobavam os terrenos colaterais à calçada existente no Alto da Serra, com testada de 15 braças por 100 de fundo. Jóia de 20$000 e foro anual de 10 a 15 réis por braça. Toda a parte restante da Imperial Fazenda constituia a 4ª classe estando os quarteirões divididos de 30 a 200 prazos. Nos mais próximos, a superfície era de 5 mil braças e nos mais distantes de 15 mil. Jóia de 20$000 e foro anual de meio real a 5 réis. No capítulo das obrigações dos proprietários, os de 1ª, 2ªa e 3ª classe tinham o compromisso de construir suas residências no período de 2 anos. Os de 4a classe deveriam iniciar o cultivo da terra dentro de um ano. O produto das jóias seria aplicado, metade para a Caixa de Socorro Mútuo, criada pelo governo da Província e metade para a construção da Igreja Católica e do Templo Evangélico (artigo 29). Pelo artigo 24, os colonos estavam isentos do pagamento da jóia e do foro anual durante 8 anos, a contar de 01/01/1846. Graças a essa particularidade - o pagamento do foro a partir de 1854 - é que consultando os velhos papéis e escrituras da Superintendência da Imperial Fazenda e da Mordomia da Casa Imperial, conseguimos organizar a lista dos nomes das colonos de Petrópolis, divididos por Quarteirões (os locais das suas residências) e indicando os números dos prazos de sua propriedade. Saem assim da obscuridade, em que tem permanecido, os colonos de Petrópolis. É reparada a injustiça do silêncio cometida pela própria Comissão do Centenário, que editou 7 alentados volumes em 1943, e ignorou os povoadores germânicos, talvez pôr um excesso de prudência "antinazista" ... Honra e glória à memória dos que com o seu trabalho fizeram a grandeza da nossa cidade. E maior será a satisfação ao constatar que quem os tira da obscuridade é um descendente de colonos, primitivos habitantes dos quarteirões Castelânea e Woerstadt. |